Restrições orçamentárias e risco eleitoral limitam as opções do novo primeiro-ministro do Reino Unido
O novo primeiro-ministro, Andy Burnham, enfrenta fortes restrições orçamentárias, o que aponta para um orçamento de outono bastante contido. Analistas da ING Economics avaliam, no entanto, que medidas mais ousadas envolvendo investimentos em infraestrutura, reforma tributária ou até mesmo a convocação de eleições antecipadas poderiam provocar turbulência nos mercados financeiros do Reino Unido. Por enquanto, os investidores permanecem tranquilos: a chegada de Burnham ao poder gerou pouca reação negativa no mercado de títulos públicos britânicos (gilts), e o prêmio de risco desses papéis continua sob controle, já que a maioria dos participantes do mercado não espera decisões precipitadas da nova liderança neste ano.
As ambições do primeiro-ministro — que vão desde grandes investimentos em habitação até discussões sobre nacionalizações — estão fortemente limitadas pelo compromisso de respeitar as regras fiscais e de não elevar os principais impostos. No cenário-base, os especialistas esperam um orçamento voltado para medidas de grande apelo popular, mas de custo relativamente baixo, como a redução das tarifas de ônibus, incentivos fiscais para o setor de hospitalidade e a transferência de parte dos subsídios à energia para o orçamento geral do governo. Uma reserva para endividamento de £16 bilhões, criada pelas reformas da ex-chanceler Rachel Reeves, ajudará a compensar a deterioração das projeções decorrente do aumento dos custos de financiamento e da redução da imigração. Ao mesmo tempo, a emissão de gilts neste exercício fiscal deverá cair de £304 bilhões para £246 bilhões, um exemplo raro de efetivo aperto fiscal.
Entre as possíveis surpresas destacadas pelos analistas estão a criação de bancos regionais de financiamento habitacional, uma possível reforma do sistema de pensões conhecida como "triple lock", mudanças na tributação imobiliária — incluindo a ampliação do chamado imposto sobre mansões a partir de 2028 — e uma provável revisão das próprias regras fiscais para acomodar o aumento dos gastos com defesa. O principal fator de incerteza, porém, continua sendo a possibilidade de uma eleição geral antecipada. A pesquisa mais recente da YouGov mostra o partido político britânico Reform UK liderando as intenções de voto, com 24%. Isso significa que uma convocação antecipada das urnas poderá ser recebida de forma negativa pelos mercados, devido aos riscos de paralisia política ou de um aumento acentuado do endividamento público. No cenário-base de um orçamento contido, a ING espera que o Banco da Inglaterra (BoE) retome o ciclo de cortes nas taxas de juros em 2027.